História ilustra o potencial das mulheres para contribuir com soluções diplomáticas e pacíficas

Apesar da crescente atenção às questões de gênero, o papel das mulheres como mediadores internacionais permanece muito limitado, como demonstra o Global Study/ UN Women 2015. Isso mesmo após a promulgação da Resolução nº 1325, de 2000, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, que reafirma a importância da promoção da igualdade de género em todas as fases dos processos de construção da paz e da promoção da segurança. A presença diminuta e pouco expressiva das mulheres nas mesas de negociação é muito mais evidente do que em outros papéis públicos de tomada de decisão.

Na década de 1990, a participação das mulheres nos processos de construção de paz das Nações Unidas era de apenas 11%. Uma análise quantitativa do período identificou que, em 92 acordos de paz, as mulheres participaram em apenas cinco. “Nenhuma mulher foi nomeada Promotora ou Líder de Mediadores da Paz em reuniões patrocinadas pelas Nações Unidas, embora em algumas palestras patrocinadas pela União Africana ou outras instituições, as mulheres se juntaram a uma equipe de mediadores”, reconhece a ONU no relatório Women’s Participation in Peace Negotiations: Connections between Presence and Influence.

Mais de 50% dos acordos de paz, contudo, falham dentro de cinco anos após a assinatura. Não é exagero apontar duas razões principais para isso: as causas subjacentes dos conflitos não são identificadas, nem se busca a prevenção do seu ressurgimento; e, principalmente, a falta de inclusão das mulheres no processo de paz (seja como partes do conflito ou como mediadoras). Isso porque mulheres geralmente preferem adotar táticas mais cooperativas, buscando a paz através de colaboração. Conforme pesquisas da especialista em questões de gênero e negociação Deborah Kolb, as mediadoras podem mudar o foco, a dinâmica e o resultado das negociações porque trazem experiência única à mesa.

Segundo o European Forum for International Mediation and Dialogue, a mediação pode ser definida como “um processo de comunicação estruturado, no qual um terceiro imparcial trabalha com partes no conflito para encontrar soluções comumente aceitáveis para sua disputa de forma a satisfazer todos os interesses em jogo”. O Judiciário nem sempre resolve os conflitos de maneira eficaz. Via de regra, o juiz profere uma sentença que reconhece apenas os interesses de uma das partes. Além disso, dependendo da situação e das partes envolvidas, ao observar apenas as regras de direito internacional, pode não haver jurisdição competente para julgar o assunto.

Como exemplos de benefícios da mediação, é importante frisar os baixos custos, a possibilidade de as partes criarem uma resolução flexível e que satisfaça ambos os interesses em análise. Assim, sua eficácia baseia-se na capacidade de um terceiro para facilitar a comunicação, interagindo como um canal que ajude as partes a “falarem o mesmo idioma” e chegarem ao entendimento. É justamente neste ponto que se destaca o papel das mulheres. A literatura recente sobre concepções de gênero em papéis de mediação tem concluído que as mediadoras geralmente se comportam de forma consistente como facilitadoras da comunicação, estimulando as partes a contarem suas histórias usando seu próprio idioma, por exemplo. Mediadores do gênero masculino, por outro lado, são mais propensos a se comportar como facilitadores do processo, em um quadro de liquidação, no qual o foco principal é obter um acordo.

Em Her place at the table: A Consideration of Gender Issues in Negotiation, Deborah Kolb e Gloria Coolidge deixam ainda mais evidentes as diferenças: “As mulheres falam de maneira diferente dos homens. Suas afirmações são qualificadas com perguntas no final da frase e o modificador do padrão feminino de comunicação envolve deferência, pensamento relacional em argumento e rodeios. O padrão masculino normalmente envolve argumento linear, legalista, despersonalização e um estilo direcional. Enquanto as mulheres falam com muitos qualificadores para mostrar flexibilidade e uma oportunidade para a discussão, os homens usam termos seguros e auto-aprimorados”.

Antecipando que a assertividade pode afastar-se da conexão, as mulheres tendem a enfatizar as necessidades da outra pessoa para permitir que esta se sinta empoderada. Seu comportamento pode, portanto, parecer passivo, inativo ou deprimido, mas não é. Na década de 1990, a UN Women apoiou os movimentos das mulheres para se envolverem na construção da paz no Afeganistão, nos Balcãs, no Burundi, na Libéria, no Nepal, em Serra Leoa, na Somália, no Sudão, em Timor-Leste, entre outros países. Em Uganda, Betty Bigombe foi a mediadora-chefe no conflito entre o governo e o Exército de Resistência do Senhor (LRA), que praticaram atrocidades de lado a lado contra a população. Ela não teve treinamento para mediar o conflito, mas seguiu uma bem-sucedida estratégia que se baseou na premissa de que o mais importante era ouvir as histórias das pessoas: “Um mediador deve ser um bom ouvinte, mesmo quando as pessoas se repetem, elas deveriam ser autorizadas a continuar, pois é uma forma de ventilar uma maneira de lidar com o estresse”.

A história ilustra o potencial – ainda pouco explorado – das mulheres para contribuir com soluções diplomáticas, pacíficas e duradouras de conflitos. Resta encontrar meios para estimular ainda mais a sua participação.

Por Kizzy Mota e Cristiane Carneiro – Jota

A importância das questões de gênero na mediação